VOTO ZERO significa não votar em fichas-sujas; omissos; corruptos; corruptores; farristas com dinheiro público; demagogos; dissimulados; ímprobos; gazeteiros; submissos às lideranças; vendedores de votos; corporativistas; nepotistas; benevolentes com as ilicitudes; condescendentes com a bandidagem; promotores da insegurança jurídica e coniventes com o descalabro da justiça criminal, que desvalorizam os policiais, aceitam a morosidade da justiça, criam leis permissivas; enfraquecem as leis e a justiça, traem seus eleitores; não representam o povo e se lixam para a população.

domingo, 28 de setembro de 2014

TER MAIS TENDO MENOS



ZH 28 de setembro de 2014 | N° 17936


FLÁVIO TAVARES



A disputa presidencial se parece a uma carreira de cavalos em cancha reta. E não o digo pelos resultados das pesquisas de voto, pouco confiáveis mas que induzem o eleitor. Em parte, tudo recorda aquelas pencas do interior, em que os donos contam maravilhas de seus potrancos e éguas para aumentar o peso das apostas. Nada é mais falso do que as horas anteriores à corrida (mais ainda com três parelheiros fortes) em que cada qual se gaba de si próprio, de olho na penca de dinheiro.

A uma semana da eleição, tudo serve de palco para os candidatos se exibirem. Tomam café em sujos bares de rua que jamais frequentariam ou abraçam desconhecidos como velhos amigos. Se lhes pedirem, fazem até piruetas de circo. Eu não esperava, porém, que a presidente Dilma usasse a assembleia geral da ONU, em Nova York, para definir seu programa de governo quanto à (des)proteção das florestas, negando-se a assinar a carta-compromisso de “desmatamento zero” até 2030, já que “o Brasil não foi consultado”. (Nosso embaixador na ONU foi ministro do Exterior e deveria ter sido mais atento.) Quando o aumento do aquecimento global ameaça a agricultura (e amplia a fome) a presidente Dilma mostrou ao mundo um retrato retocado do nosso desmatamento, como se aqui fosse o esplendor do verde.

Frisou que, a partir de 2004, o desmatamento caiu 79%, o que é verdade. Omitiu, porém, que a devastação aumentou 29% em 2013, quando sumiram 5.891 km2 de florestas. A mudança de tendência é prenúncio terrível – iniciada em 2012, acentuou-se no ano passado e deve crescer em 2014.

O irônico é que, no fundo, Dilma apenas administra a parte maldita da herança deixada por Marina Silva quando ministra do Meio Ambiente de Lula.

Marina inventou o tal leilão das florestas públicas, num “sim” obsceno à devastação, que virou lei em 2006. A partir daí, os grandes devastadores sentiram-se estimulados a degradar e não preservar, mesmo quando não participassem dos leilões. Entregar por 30 anos à sanha de madeireiros inescrupulosos a maior floresta tropical do mundo (com incalculável bioma e mais de 3 mil espécies de peixes em 25 mil quilômetros de águas navegáveis) sob o pretexto de “arrecadar fundos”, não terá sido um crime contra a vida?

Marina deixou o governo (e depois o PT) em 2008, mas em 2004, com ela mandando na área, cortaram 27 mil km2 da Mata Atlântica e da Amazônia. Em 2006, com o “sim” de seu chefe Lula, ela propôs os tais “leilões”. No Congresso, o deputado Beto Albuquerque, então achegado a Lula e relator da proposta, poliu algumas insanidades e acrescentou outras. Hoje, Marina e Beto de novo se juntaram.

E Aécio? Em 2006, ano da lei dos leilões, governava Minas Gerais e não piou sobre o tema.

P.S. – Na sexta-feira, a Câmara Municipal concedeu-me o título de Cidadão Honorário e, agora, sou também porto-alegrense em decisão unânime, a partir de proposta do vereador Pedro Ruas. Recebi como homenagem às posições in- dependentes, destituídas de fanatismo, intemperança ou rancor que tento manter ao longo de 80 anos de vida. Ao agradecer, frisei que me esforço para ser aberto e sem preconceitos, mas sem ser neutro ou impassível. Não há neutralidade quando o crime nos espreita a cada dia, quando se cultiva o individualismo egoís- ta e se abandona a solidariedade. Menos ainda quando se degrada a vida no planeta.

No que faço ou escrevo, nos livros e artigos de jornal, nos amores e dores, busco guiar-me pela máxima de austeridade de São Josemaría Escrivá: “Não criemos necessidades. Aquele que menos necessita mais tem”.

Feito isto, a recompensa será a vida.

Jornalista e escritor

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